Além do Segredo
Capítulo 2 – Os Primeiros Sinais
A primeira noite na nova casa trouxe um misto de cansaço e inquietação. As caixas ainda estavam espalhadas pela sala, e a poeira acumulada nos cantos mostrava que a casa ficara abandonada por muito tempo. Depois de um jantar simples e algumas organizações básicas, Leonardo e sua família foram se deitar.
Beatriz sentia um desconforto inexplicável. Algo na atmosfera daquela casa a fazia se arrepiar. Tentando afastar os pensamentos ruins, deitou-se ao lado de Leonardo e fechou os olhos, esperando o sono vir. Mas, no meio da madrugada, um ruído a despertou. Era um som baixo, como passos leves arrastando-se pelo corredor.
Ela se sentou na cama e segurou o braço de Leonardo.
— Leo... você ouviu isso?
Ele resmungou, ainda sonolento:
— O quê?
— Tem alguém andando pela casa...
Leonardo suspirou e esfregou o rosto.
— Deve ser a casa assentando... essas construções antigas fazem barulhos estranhos.
Beatriz não estava convencida, mas tentou ignorar. Então, um ruído mais alto ecoou pela casa. Algo parecido com um arranhado na parede, seguido de um leve sussurro. Seu coração disparou.
Leonardo sentou-se, agora completamente desperto.
— Isso veio da cozinha...
Os dois saíram do quarto e caminharam pelo corredor escuro. Ao chegarem à cozinha, a cena os fez parar abruptamente. Uma cadeira estava tombada no chão, e a janela, que Leonardo tinha certeza de que fechara antes de dormir, estava entreaberta.
Ele se aproximou lentamente, conferiu a tranca e fechou a janela.
— Provavelmente o vento — disse, tentando tranquilizar Beatriz, embora ele mesmo sentisse um incômodo profundo.
Voltaram para o quarto, mas Beatriz passou o resto da noite acordada, sentindo que havia algo os observando.
No dia seguinte
Logo pela manhã, ao sair para pegar algo no carro, Leonardo viu Celestino parado na calçada, observando sua casa com um olhar indecifrado.
— Dormiram bem? — perguntou o vizinho, com um sorriso que não transmitia confiança.
Leonardo hesitou antes de responder:
— Tivemos uma noite um pouco... agitada.
Celestino soltou um leve suspiro e olhou para a casa.
— Todos têm. No começo.
Leonardo franziu a testa.
— Como assim?
O vizinho ignorou a pergunta e virou-se para ir embora, mas antes, deixou um aviso inquietante:
— Apenas certifique-se de que as portas fiquem bem trancadas à noite. Nem tudo que anda por aqui gosta de ser visto.
Leonardo ficou parado por um momento, sentindo um arrepio subir por sua espinha.
Nos dias seguintes, a família começou a notar mais eventos estranhos: sussurros no meio da noite, sombras se movendo pelos cantos da casa e a sensação de estarem sendo observados. Beatriz evitava falar sobre isso, mas seu semblante denunciava seu medo crescente.
As crianças também pareciam incomodadas. Miguel, que sempre fora cético, acordou certa noite dizendo ter sonhado com uma mulher de branco parada no canto de seu quarto. Já Carolina se recusava a dormir sozinha, alegando que escutava alguém chamando seu nome.
Na terceira noite, o clima dentro da casa se tornou ainda mais pesado. Beatriz acordou sobressaltada com um som estridente vindo do corredor. Parecia madeira se partindo. Leonardo pulou da cama e pegou um abajur como arma improvisada antes de sair do quarto.
Ao iluminar o corredor, seus olhos se arregalaram. Havia marcas de arranhões na parede, como se alguém ou algo tivesse passado as unhas afiadas sobre a superfície.
— Isso já não é coisa da nossa cabeça — sussurrou Beatriz, segurando o braço de Leonardo.
Na manhã seguinte, Leonardo decidiu buscar respostas. Foi até a casa de Cora, na Rua 5, determinado a confrontá-la sobre o que estava acontecendo. Bateu na porta e esperou. Nenhuma resposta. Bateu novamente, com mais força.
Então, a porta se abriu lentamente, revelando um interior escuro e silencioso. O coração de Leonardo acelerou. Ele chamou por Cora, mas não obteve resposta.
Foi quando notou um detalhe perturbador: havia velas acesas no centro da sala, formando um círculo. E, sobre a mesa, uma fotografia antiga de sua casa. Nela, um grupo de pessoas estava reunido na frente da residência. Mas o que mais o arrepiou foi perceber que todas as pessoas na foto tinham os rostos riscados com um traço negro.
Um arrepio percorreu sua espinha quando uma voz sussurrada ecoou no ambiente:
— Você não devia estar aqui...
Continua...

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