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Entre o Bem e o Mal

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  Capítulo 20: A Queda da Torre O chão da torre de Nyx partiu-se com um estrondo seco, como o rasgo de um véu antigo. As pedras tremeram, os espelhos explodiram em estilhaços de luz e sombra. Lyra flutuava no centro do caos, os olhos vazios de pupilas. A voz dela se espalhava em múltiplas direções, como se o tempo estivesse tentando impedir que fosse ouvida. — Eu… me chamo… O som seguinte não foi uma palavra. Foi um silêncio absoluto. Um momento em que o mundo segurou o fôlego, e o tempo hesitou. E então ele chegou. — A entidade emergiu da rachadura como fumaça sólida. Não tinha forma definida. Era uma figura em constante movimento: olhos que se abriam e fechavam pelo corpo, bocas onde não deveriam existir, e reflexos de pessoas que não estavam ali — como se ele já tivesse passado por todos os que o olhavam. Irina tentou conjurar um escudo, mas as palavras sumiram de sua mente. Nyx recuou, segurando Lyra. Pela primeira vez, medo. Medo verdadeiro. — Não era pra ele saber o próprio n...

Além do Segredo

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Capítulo 35 – A Última Porta A casa rangia enquanto eles desciam pela escadaria de volta ao primeiro andar. Com a quebra do espelho vermelho, a escuridão começava a se dissipar — mas algo ainda pulsava no chão, como um coração enterrado. — Ainda não acabou — disse Carolina, com os olhos firmes. — A maldição da casa... ela nasceu aqui. — E é aqui que vamos enterrá-la. Eles chegaram ao salão principal, onde a rachadura havia se formado. Agora, ela estava aberta como uma boca escancarada. No centro, Luma segurava algo: um pedaço do espelho original — o primeiro. — Esse é o núcleo. Tudo começou com esse reflexo. — Uma família amaldiçoada. Um pacto quebrado. Uma criança presa. — Mas agora temos escolha. Leo, Beatriz e Carolina deram as mãos. Luma colocou o pedaço no chão. — Que isso seja o fim do espelho. E o começo da luz. Eles repetiram, em uníssono, as palavras que Carolina ouvira na mente desde o primeiro capítulo da jornada. A língua antiga. Dessa vez, fluía como se fosse parte deles. ...

Além do Segredo

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  Capítulo 34 – O Espelho Vermelho O arco vermelho pulsava como um coração prestes a explodir. Diferente dos outros, esse não os deixou entrar — ele os sugou. Carolina, Leo e Beatriz sentiram a pele queimar, como se estivessem atravessando fogo líquido. E então… silêncio. O chão era feito de ossos. O céu era uma cúpula rubra, pulsante, como carne viva. E ali, no centro do vazio, estava ela. A menina de cabelos prateados. Mas agora, seus olhos estavam escuros, e em sua testa brilhava um símbolo estranho — metade espelho, metade sombra. — Chegaram até aqui — ela disse. Sua voz era a de uma criança… e de uma entidade antiga ao mesmo tempo. — Mas não sabem o que pedem. Leo se adiantou. — Você quer ser salva. Nós viemos por isso. A menina abaixou o olhar. Um sorriso triste surgiu. — Eu queria… antes. Mas agora é tarde. Beatriz franziu a testa. — Por quê? Do chão, começaram a emergir reflexos distorcidos dos três: Carolina com olhos ocos e mãos sangrentas. Leo cercado por fios de sombra,...

Além do Segredo

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  Capítulo 33 – O Espelho Negro O arco negro os engoliu como um poço sem fundo. Dessa vez, não houve luz. Somente a escuridão densa, pegajosa. Beatriz sentiu o ar preso nos pulmões — como se algo quisesse arrancar dela todo o calor, toda a lembrança boa. Quando seus pés tocaram o chão, ela estava sozinha. — Leo? Carol? Nada. Ao seu redor, um corredor interminável, paredes negras que pareciam feitas de fumaça. Espelhos cobriam os lados, mas todos estavam escurecidos. Exceto um. Beatriz se aproximou. O espelho tremia. E então, mostrou ela mesma, sozinha... abandonada em uma sala escura. — Não... — sussurrou. — Isso já passou. Mas a cena mudou. Mostrou Carolina e Leo. Juntos. Fugindo. Sem ela. Rindo. Felizes. — Eles... me deixaram? A sombra por trás dela sussurrou: — Você sempre foi o peso. A que só atrasa. A que ninguém escolheria. Beatriz fechou os olhos. — Isso é mentira. O reflexo de Carolina apareceu no espelho — mas os olhos estavam vazios, a boca costurada. Leo veio logo depois...

Entre o Bem e o Mal

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  Capítulo 19: O Nome que Nunca Foi Dito O céu amanheceu cor de ferro. As corujas de obsidiana caíram, uma por uma, com as asas partidas. As fronteiras, antes protegidas por círculos lunares, se desfaziam como fumaça. Algo caminhava entre mundos. Selene se reunira com Nyx antes que o sol nascesse. — Chega de enigmas — disse Selene. — Quem é ele? Nyx não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão para o espelho rachado, onde ainda vibrava um traço de poder antigo. — Ele não tem nome, Selene. E esse é o problema. — Muito antes das Filhas da Lua… Antes dos grimórios, antes das torres, antes mesmo das luas cheias contarem os ciclos da magia… havia apenas um círculo. Doze bruxas. Doze dons. E uma delas, a décima terceira, nasceu fora do tempo. Não veio da terra. Não veio da lua. Veio do intervalo entre um suspiro e um pesadelo. Ninguém a chamou, mas ela veio. E tudo o que tocava, quebrava. As doze uniram suas magias e selaram a intrusa entre os reflexos, onde nenhuma criatura viva pod...

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  Capítulo 32 – O Espelho Prateado Carolina foi a primeira a atravessar o arco prateado. O ar mudou de imediato. O frio entrou por sua pele como agulhas. Ela pisava em um chão feito de espelho líquido — a cada passo, via reflexos seus que não reconhecia. Beatriz e Leo surgiram logo atrás. — Onde estamos? — Beatriz perguntou, a voz saindo como um eco distante. Então, tudo escureceu. Uma única luz brilhou no centro do vazio. E ali, diante deles, surgiu uma cena. O passado. Carolina reconheceu na hora: Ela mesma, ainda criança, de joelhos em frente a uma árvore caída, chorando sozinha. — Isso é... — ela começou, mas não terminou. A cena se moveu. A menininha gritava por ajuda. Pedia desculpas. Pedia para a mãe voltar. — É o dia em que ela desapareceu — Carolina sussurrou. — O dia em que minha mãe sumiu. Leo colocou a mão no ombro dela. — Isso é o que o espelho quer. Que você reviva a dor. Que enfraqueça. — Mas por quê? A resposta veio de dentro do espelho. — Porque a dor enfraquece......

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  Capítulo 31 – Portões de Sélamar O mundo virou de cabeça para baixo. Por um instante, Carolina sentiu como se estivesse flutuando dentro de um espelho quebrado — cada pedaço refletindo um pedaço dela mesma, de Beatriz e de Leo. Quando aterrissaram, o impacto foi suave, como cair sobre névoa sólida. Levantaram-se devagar, olhando ao redor. Sélamar era ainda mais estranha do que as visões prometiam: As ruas pareciam se curvar para longe deles, como se a cidade respirasse. As construções tinham formas que desafiavam a lógica — portas no teto, janelas de cabeça para baixo, prédios que se torciam como se fossem feitos de fumaça. E havia pessoas... ou algo parecido com pessoas. Silhuetas cinzentas vagavam pelas ruas, seus rostos borrados, seus olhos vazios. Carolina estremeceu. — Estamos mesmo em outro lugar — Beatriz murmurou. Leo se aproximou de uma grande praça no centro da cidade. Ali, uma enorme estrutura se erguia — como um portão feito de vidro escuro, coberto de inscrições em u...