Entre o Bem e o Mal

 



Capítulo 20: A Queda da Torre


O chão da torre de Nyx partiu-se com um estrondo seco, como o rasgo de um véu antigo. As pedras tremeram, os espelhos explodiram em estilhaços de luz e sombra.

Lyra flutuava no centro do caos, os olhos vazios de pupilas. A voz dela se espalhava em múltiplas direções, como se o tempo estivesse tentando impedir que fosse ouvida.

— Eu… me chamo…

O som seguinte não foi uma palavra.

Foi um silêncio absoluto.

Um momento em que o mundo segurou o fôlego, e o tempo hesitou.

E então ele chegou.

A entidade emergiu da rachadura como fumaça sólida. Não tinha forma definida. Era uma figura em constante movimento: olhos que se abriam e fechavam pelo corpo, bocas onde não deveriam existir, e reflexos de pessoas que não estavam ali — como se ele já tivesse passado por todos os que o olhavam.

Irina tentou conjurar um escudo, mas as palavras sumiram de sua mente.

Nyx recuou, segurando Lyra. Pela primeira vez, medo. Medo verdadeiro.

— Não era pra ele saber o próprio nome… — sussurrou.

No clã, as luzes se apagaram sozinhas. A lua escureceu, e uma tempestade sem nuvens desabou do nada.

Kaela gritou antes que a dor a dominasse — o selo queimava, não com fogo, mas com lembranças que não eram dela.

Selene caiu de joelhos em meio ao círculo do Conselho. As pedras do salão vibravam como tambores de guerra. A magia da terra estava reagindo. Resistindo.

— Ele já está aqui… — sussurrou.

Norman apareceu, o grimório aberto, e sangue escorrendo do nariz.

— Ele tem um nome agora — disse, trêmulo. — E está tentando nos reescrever.

Na torre desabando, Nyx ergueu Lyra nos braços. Tentou abrir um portal, mas todos os caminhos estavam dobrados, tortos — os espelhos apenas refletiam olhos. Milhares de olhos.

A entidade falou, finalmente.

Não com voz.

Mas com lembranças falsas.

Lyra viu-se crescendo em outro lugar. Selene viu Kaela a apunhalar. Kaela viu Norman conjurando a destruição do clã. Irina viu sua mãe sorrindo… e queimando.

Ele os estava fragmentando.

Selene ergueu-se. As veias em seus braços brilhavam com o mesmo brilho prateado da lua.

— Chega — disse.

Ela estendeu as mãos e, pela primeira vez desde a Lua Sangrenta, abriu o selo.

Um círculo de luz e sombra formou-se sob seus pés. Kaela apareceu ao lado, também marcada. As duas entrelaçaram as mãos.

— Se ele está completo… — disse Kaela.

— …então nós também devemos ser — completou Selene.

A lua, escondida há horas, reapareceu no céu — mas agora dividida em duas, como nos selos das duas.

E, ao mesmo tempo, Selene e Kaela atravessaram o espelho rachado, entrando no domínio da entidade.

Dentro do espelho, o mundo era feito de reflexos partidos e vozes presas. Mas as duas não hesitaram.

E pela primeira vez… o Vigia Sem Rosto hesitou também.

Porque agora, elas lembravam o que as bruxas antigas esqueceram.

O verdadeiro nome da ausência.

E estavam prontas para dizê-lo.


😊Em breve mais capítulos...

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