Além do Segredo
Capítulo 32 – O Espelho Prateado
Carolina foi a primeira a atravessar o arco prateado.
O ar mudou de imediato. O frio entrou por sua pele como agulhas.
Ela pisava em um chão feito de espelho líquido — a cada passo, via reflexos seus que não reconhecia.
Beatriz e Leo surgiram logo atrás.
— Onde estamos? — Beatriz perguntou, a voz saindo como um eco distante.
Então, tudo escureceu.
Uma única luz brilhou no centro do vazio.
E ali, diante deles, surgiu uma cena.
O passado.
Carolina reconheceu na hora:
Ela mesma, ainda criança, de joelhos em frente a uma árvore caída, chorando sozinha.
— Isso é... — ela começou, mas não terminou.
A cena se moveu.
A menininha gritava por ajuda.
Pedia desculpas.
Pedia para a mãe voltar.
— É o dia em que ela desapareceu — Carolina sussurrou. — O dia em que minha mãe sumiu.
Leo colocou a mão no ombro dela.
— Isso é o que o espelho quer. Que você reviva a dor. Que enfraqueça.
— Mas por quê?
A resposta veio de dentro do espelho.
— Porque a dor enfraquece... e o fraco obedece.
A voz não era humana. Era metálica, distorcida, e vinha de um reflexo distorcido de Carolina — mais velha, mais fria, com olhos apagados.
— Quem é você? — Beatriz gritou.
— Ela — respondeu o reflexo. — O que ela pode se tornar se desistir.
— Uma peça de Sélamar. Uma sombra obediente.
Carolina sentiu o medo crescer.
Mas, pela primeira vez, não fugiu.
Ela deu um passo à frente e encarou sua versão corrompida.
— Você é só o que eu deixaria crescer se desistisse.
— Mas não vou.
A figura avançou, os olhos queimando em cinza.
Mas antes que ela tocasse Carolina, Leo puxou o fragmento de espelho que a menina lhes dera no lago.
O fragmento brilhou — e o reflexo gritou, rachando por dentro.
Carolina deu um grito também, agora de força.
— Eu não sou você!
E, com isso, desferiu um soco contra o chão.
O espelho líquido explodiu em ondas de prata.
Tudo ficou branco.
E então, silêncio.
Os três estavam de volta à praça central de Sélamar.
A guardiã esperava, imóvel.
— Um espelho quebrado — disse ela, sem emoção. — Restam dois.
Carolina estava pálida, mas firme.
— Vamos para o próximo.
Beatriz apertou a mão dela.
Leo olhou para o arco negro.
— Vamos ver o que ele esconde.
E, de mãos dadas, caminharam rumo ao próximo reflexo.
Continue...

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