Além do Segredo
Capítulo 1 – O COMEÇO
Leonardo e sua família decidiram se mudar para uma vila afastada da cidade grande. Com a venda do apartamento na capital, ele comprou um carro e uma pequena casa na Vila Selvale. Ao chegarem, seguiram devagar pela Rua 2, procurando o imóvel, quando avistaram uma senhora sentada na calçada. Ela vestia-se toda de branco e tinha os cabelos desgrenhados. Ao passar por ela, Leonardo recebeu um inesperado "bom dia".
A mulher virou-se e, em tom grave, aconselhou-os a irem embora imediatamente. Sem entender a hostilidade, Leonardo parou o carro e perguntou o motivo de tal recepção.
— Esta vila é amaldiçoada — respondeu a senhora, com um olhar penetrante. — Não é seguro para vocês ficarem aqui. Há segredos que jamais deveriam ser revelados!
Leonardo sorriu, tentando descontrair o clima tenso.
— Não acredito nessas coisas. Acabamos de comprar uma casa na Rua 7 para viver em paz.
A mulher suspirou e disse com um tom enigmático:
— Boa sorte, então. Sejam bem-vindos ao inferno.
Curioso, Leonardo questionou:
— Se aqui é o inferno, por que a senhora ainda mora aqui?
Com um riso contido, ela respondeu:
— Eu sei me adaptar bem ao inferno. Espero que vocês aprendam também. Mas, se quiserem me fazer uma visita, me chamo Cora e moro na Rua 5, na casa de número 13517.
Leonardo agradeceu e apresentou sua família. No momento em que Cora fitou Beatriz nos olhos, seu semblante mudou.
— Tome cuidado — alertou a senhora. — Sinto que algo está para acontecer.
Assustada, Beatriz perguntou o que ela queria dizer com aquilo.
— As vozes me disseram — respondeu Cora, enigmática. — O mal existe!
Leonardo, irritado, interrompeu:
— Por favor, pare com isso. Sabemos que o mal existe, mas também acreditamos no bem. Estamos felizes aqui e nada vai nos abalar.
Cora se desculpou, afirmando que não queria assustá-los, apenas alertá-los sobre o que está por vir. Irritado, Leonardo chamou Beatriz e as crianças para seguirem caminho. Dentro do carro, Beatriz expressou sua preocupação.
— Isso foi assustador, Leo. Estou com medo.
— Nada vai acontecer com você — assegurou ele, apertando sua mão. — Eu nunca permitiria.
Enquanto passavam pela Rua 5, Leonardo avistou um cemitério. Ao olhar para a entrada, viu algo que o fez gelar: uma mulher idêntica a Cora entrando no local. Ele parou bruscamente o carro.
— Beatriz, você viu isso?
— Ver o quê? — respondeu ela, confusa. — Tudo o que vejo é que você parou o carro em frente a um cemitério.
Leonardo hesitou.
— Eu juro que vi Cora entrando lá dentro.
Beatriz sorriu nervosa.
— Você deve estar imaginando coisas. Ela estava na Rua 2, não poderia estar aqui tão rápido.
Leonardo riu sem graça e resolveu seguir viagem. Ao chegarem na Rua 7, ele avistou sua nova casa.
Assim que saíram do carro, Carolina fez uma careta.
— Que casa velha! Que medo!
— Para com isso! — repreendeu Miguel. — Eu achei perfeita.
Leonardo virou-se para Beatriz.
— O que achou?
Ela respirou fundo e disse:
— Já vi melhores, mas desde que seja em paz e com tranquilidade, tudo bem para mim.
Nesse momento, um senhor abriu a porta da casa ao lado e os cumprimentou.
— Bem-vindos à Vila Selvale! Não liguem para os comentários ruins que vão ouvir.
Leonardo sorriu.
— Obrigado! Você é o primeiro que não fala absurdos sobre o lugar. A primeira pessoa com quem conversamos disse coisas inacreditáveis!
O homem riu levemente.
— Sou Celestino. Isso é normal por aqui, especialmente nas Ruas 2, 3 e 4. Os moradores vivem reclamando, mas nunca se mudam. Na verdade, posso lhe garantir uma coisa: aqueles que vêm para esta vila, nunca mais conseguem sair.
Leonardo franziu a testa, sem entender o que ele quis dizer. Mesmo assim, agradeceu e seguiu em direção à porta de sua casa. Antes de entrar, olhou para trás e viu Celestino parado, observando seu carro.
Sentindo um leve arrepio, ele ignorou a cena e atravessou a soleira.
Continua...

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