Além do Segredo


 





Capítulo 12 – O Eco dos Que Ficaram

Carolina piscou — e a criatura havia sumido, como se nunca tivesse existido.

No lugar onde Leonardo estivera, restava apenas uma rachadura no chão, fina e pulsante como a cicatriz de uma ferida antiga.

Beatriz se arrastou até Carolina, o coração disparado, os olhos varrendo a escuridão que parecia agora mais viva, mais densa.

— Ele... ele se foi? — a voz de Beatriz era um fio de som.

Carolina tocou a rachadura com a ponta dos dedos. Um arrepio cortante subiu por seu braço.

Não era apenas uma rachadura — era um chamado.

— Ele ainda está aqui — murmurou Carolina, os olhos vidrados. — Preso do outro lado.

Beatriz recuou, as lágrimas brotando sem controle.

— Como tiramos ele de lá?

Carolina fechou os olhos. No fundo da mente, ouviu sussurros. Uma língua antiga, que ela não entendia, mas que de alguma forma... reconhecia.

— Precisamos seguir — disse, erguendo-se com dificuldade. — Antes que eles nos vejam.

— Eles? — Beatriz sussurrou.

A casa ao redor gemeu, as paredes ondulando como se respirassem. Da escuridão, mãos surgiam — não sólidas, mas sombras dentro da sombra — tateando, buscando.

O véu entre os mundos estava rompido.

Sem pensar, Carolina puxou Beatriz, correndo em direção à escadaria. Mas cada passo parecia errado, como se o chão mudasse sob seus pés.

Atrás delas, a rachadura crescia.

E dele, algo começava a sair.

O ar ficou pesado, quase sólido, enquanto Carolina e Beatriz subiam cambaleando a escadaria que parecia não ter fim. Cada degrau rangia, se dobrava, estalava como ossos velhos.

— Rápido, rápido! — Carolina arfou, sem ousar olhar para trás.

Beatriz chorava em silêncio, seus pés tropeçando, mas ela se agarrava a Carolina como uma âncora.

Um estalo ecoou — não de madeira, mas de algo muito mais profundo, como o rasgar de carne viva.

Carolina não precisou olhar para saber: a rachadura havia se rompido de vez.

E o que saía dela... não era Leonardo.

Uma silhueta rastejava para fora, alta e disforme, coberta de uma névoa negra que parecia devorar a luz ao redor. Múltiplos olhos abriam-se e fechavam-se em seu corpo como bocas famintas.

O Vigia Sem Rosto.

Ele atravessara.

O pavor golpeou Carolina tão forte que ela quase desabou. A criatura não os perseguia com pressa — movia-se com a lentidão certeira de quem sabe que a presa não tem para onde fugir.

No topo da escada, uma porta apareceu — onde antes havia apenas parede.

Sem hesitar, Carolina e Beatriz dispararam para ela.

As mãos-sombra alcançavam seus tornozelos, suas costas, seus cabelos.

Carolina esticou a mão e girou a maçaneta.

A porta rangeu, abriu-se... e do outro lado, havia apenas um espelho. Um espelho enorme e trêmulo, como a superfície de um lago sombrio.

— É agora ou nunca — murmurou Carolina.

Sem pensar, sem respirar, ela puxou Beatriz consigo para dentro do espelho.

Atrás delas, o Vigia soltou um som — um coro de vozes sem boca.

E o mundo desabou.


Continue...

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