Além do Segredo

 

Capítulo 14 – O Primeiro Quebrado

O corredor diante delas pulsava, vivo, como a garganta de uma criatura adormecida.

Carolina corria puxando Beatriz, sentindo o peso da escuridão atrás delas, o cheiro metálico de algo podre no ar.

Cada batida dos seus pés parecia ecoar para sempre, distorcida, multiplicada.

De repente, o chão sob seus pés cedeu.

As duas caíram — mas não houve impacto.

Elas flutuaram, como se a gravidade tivesse se esquecido delas.

O corredor se desfez em pedaços de vidro flutuante, cada um refletindo momentos diferentes: o dia em que Carolina conheceu Leonardo, a primeira vez que Beatriz chorou por medo, o instante em que a rachadura se abriu...

Carolina esticou a mão, tentando agarrar alguma coisa — e tocou um dos fragmentos.

O mundo explodiu de dor e lembranças.

Ela viu Leonardo, preso do outro lado, os olhos vazios, a boca se movendo sem som, batendo contra um vidro invisível. Tentando avisá-la. Tentando gritar.

— Carolina! — a voz de Beatriz rompeu o transe.

Ela piscou, voltando para o vazio cinzento.

Mas não estavam sozinhas.

Abaixo delas — ou acima, ou ao redor, já que o espaço parecia não obedecer nenhuma lógica — uma figura se aproximava.

Era um menino.

Ou o que sobrava de um.

A pele estava rasgada em linhas limpas, como se alguém tivesse tentado desmontá-lo e colado tudo de volta às pressas. Um olho pendia da órbita, os dedos estavam em número errado.

Mas ele sorria, um sorriso triste e quebrado.

— Vocês... ouviram o chamado? — sua voz era feita de estalos e suspiros.

Beatriz recuou, o rosto pálido.

Carolina, apesar do pânico, deu um passo à frente.

— Quem é você?

O menino inclinou a cabeça, curioso, como um pássaro ferido.

— Eu fui... como vocês. Um jogador. Um perdido.

Ele ergueu a mão — e no seu pulso havia uma cicatriz em espiral, que parecia se mover e pulsar.

— Vocês quebraram a barreira — disse ele, e por um momento sua voz soou cheia de esperança. — Vocês abriram o caminho.

Carolina gelou.

— O caminho... para quem?

O sorriso do menino se alargou — e rachaduras abriram-se no seu rosto, como se ele fosse feito de porcelana.

— Para todos nós.

Atrás dele, dezenas de sombras começaram a surgir, saindo das rachaduras nos fragmentos de vidro, cada uma carregando um eco de desespero e perda.

O vazio entre mundos estava se enchendo.

E eles não eram apenas ecos.

Eram os quebrados.

E queriam voltar.


Continue...

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