Entre o Bem e o Mal
As bruxas tentavam restaurar o que restava do círculo sagrado, mas a presença da Umbra havia deixado feridas na terra — e na alma de cada uma. Selene, agora oficialmente líder, já sentia o peso do novo título em seus ombros.
Foi então que uma gargalhada suave e arrastada cortou o ar como veneno.
— Então essa é a nova salvadora da irmandade?
Selene virou-se rapidamente, reconhecendo a voz antes mesmo de vê-la. Lilith se aproximava com passos lentos e provocativos, a longa capa arrastando na terra escura, o olhar fixo em Selene como quem observa uma presa entediada.
— Lilith… — disse Morgath, sem esconder o incômodo.
— Saudades, mãe Morgath? Ou só medo de que eu estrague a festa? — Lilith parou diante de Selene, o sorriso zombeteiro no rosto. — A lua escolheu mal. De novo.
— Vá direto ao ponto — retrucou Selene, fria. — O que você quer?
Antes que Lilith respondesse, uma nova presença se fez sentir. Uma energia intensa, antiga. Um homem surgiu atrás dela, envolto em um manto escuro e com um olhar que misturava dor e fúria.
— Norman... — Selene recuou um passo. — Você é...
— Irmão de Nyx — ele completou, com a voz firme. — E estou aqui porque ela mexeu com coisas que nem mesmo eu ousaria tocar.
Morgath estreitou os olhos. — E por que vir agora? Depois de tudo?
— Porque eu quero impedir que o nome da minha irmã seja destruído por um erro... e talvez salvá-la, se ainda for possível.
Lilith suspirou teatralmente. — Tão nobre. Tão… inútil.
Selene encarou os dois, sentindo que aquele reencontro não era coincidência. As peças do tabuleiro estavam se movendo. E nem todos jogavam pelo mesmo lado.
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O silêncio após as palavras de Norman era quase palpável. As bruxas reunidas ao redor do círculo sagrado observavam a tensão crescer entre os recém-chegados e a nova líder. Lilith sorria com o canto dos lábios, claramente se deliciando com o desconforto de Selene.
— Se você está aqui pra salvar sua irmã — disse Selene, encarando Norman — vai ter que aceitar que talvez ela não possa mais ser salva.
Norman cruzou os braços.
— Isso quem vai decidir sou eu.
Morgath, cansada da disputa, ergueu a voz:
— Chega. A presença da Umbra ainda está fresca neste solo, e vocês dois trouxeram mais perguntas do que respostas. Fale, Norman. O que sabe sobre esse espírito?
Norman hesitou por um momento. Então falou, com pesar.
— Umbra não é apenas um espírito antigo. Ele é um resquício do primeiro Caos. Antes mesmo da fundação dos clãs, antes da Lua nos guiar… ele já existia. E Nyx... Nyx descobriu textos que deviam estar enterrados para sempre. Ela fez um pacto de sangue, mas não entendeu que Umbra não faz alianças. Ele consome. Ela foi usada.
— Uma ferramenta tola — disse Lilith, girando um anel em seu dedo pálido. — E agora ele está livre. Graças à sua “brilhante” irmã.
Selene se aproximou de Lilith, os olhos faiscando.
— E o que você sabe sobre Umbra, Lilith? Veio só zombar ou está escondendo alguma coisa?
Lilith riu, mas por um instante seu olhar escureceu. Havia medo ali. Ou talvez respeito.
— Eu servi um mestre pior que Umbra — sussurrou ela. — E sobrevivi. Mas conheço os caminhos sombrios... os que podem levá-lo de volta à prisão.
Morgath se aproximou de ambas.
— Se vocês duas terminarem de medir poder, talvez possam aceitar o óbvio. Vocês vão ter que trabalhar juntas. Umbra não vai parar. E se Nyx ainda está viva dentro dele, podemos ter uma chance de trazê-la de volta… ou destruí-la de vez.
Norman abaixou a cabeça, tenso.
— Se minha irmã ainda estiver lá, eu vou encontrá-la.
Selene respirou fundo, o peso do destino cada vez maior.
— Então vamos começar. Antes que o mundo inteiro caia na escuridão.
Lilith arqueou uma sobrancelha, debochada.
— Finalmente. Achei que esse clã só servia pra fazer cerimônia e chorar.
Selene ignorou o comentário. O verdadeiro desafio estava apenas começando.
E a sombra da Umbra ainda rastejava.
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