Entre o Bem e o Mal
Capítulo 8: A Voz do Abismo
A noite caiu com uma densidade incomum sobre o clã. Nem mesmo a lua ousava brilhar. As tochas acesas pelas bruxas tremeluziram sem vento. A magia do lugar parecia... doente.
No Salão dos Espelhos, Morgath reunia as líderes de cada círculo. O fragmento da Umbra havia começado a se expandir, criando rachaduras no chão sagrado. A fenda que Irina abrira, mesmo fechada, deixara cicatrizes no tecido do mundo.
— A barreira entre os planos está se rompendo mais rápido do que prevíamos — disse Morgath, com a voz carregada de urgência. — E algo está tentando atravessar de novo.
— Umbra? — perguntou Norman, já com as runas de proteção na mão.
— Não ainda — respondeu Morgath. — Mas… algo ligado a ele.
Selene estava quieta. Desde o confronto com Irina, não dormia, não comia. Repetia mentalmente as palavras dela. “Somos duas prisioneiras.”
— Temos uma presença se aproximando da entrada leste — avisou uma sentinela, ofegante. — Mas não é uma criatura... é uma mulher. Sozinha. Está descalça. E… está cantando.
As bruxas se entreolharam.
— Que tipo de canto? — perguntou Lilith, já conjurando uma serpente de névoa.
A sentinela hesitou, engolindo seco.
— Uma canção de ninar. A mesma que Nyx costumava cantar quando era criança.
Silêncio.
Morgath se levantou bruscamente.
— Preparem os círculos. Agora.
—
Nos portões do clã
A figura caminhava devagar, como se o tempo ao seu redor corresse diferente. O cabelo preto esvoaçava mesmo sem vento. Os pés sangravam na terra fria, mas ela sorria.
Selene se aproximou da linha de proteção, sentindo o coração apertar.
Era Nyx.
Ou... algo que usava seu corpo.
— Olá, irmãzinha — disse ela com um tom suave. — Senti sua falta.
— O que você é? — sussurrou Selene, sentindo a Flor de Prata queimar em sua mão.
— Eu sou o eco da escolha que vocês recusaram — respondeu Nyx, seus olhos brilhando com uma luz antinatural. — Umbra me poupou. Ele me moldou. Agora, sou o presságio. A primeira de muitos.
Ela ergueu as mãos. O solo tremeu. Das sombras surgiram criaturas deformadas, feitas de memória e dor. Bruxas caídas, corrompidas, com os rostos desfigurados pelo esquecimento.
Norman gritou um encantamento de contenção. Lilith lançou suas adagas de treva. Mas Nyx simplesmente andava, como se estivesse em uma dança silenciosa.
— Eu vim fazer um aviso — disse ela, parando a poucos passos da barreira mágica. — A última lua está se aproximando. Quando ela sangrar… Umbra nascerá.
Selene deu um passo à frente, encarando a irmã.
— E quando ele vier… eu estarei esperando.
Nyx sorriu.
— Eu espero que esteja. Porque ele vai começar… por você.
Num piscar de olhos, a imagem de Nyx se desfez em pétalas negras, levadas pelo vento.
As criaturas sumiram.
Mas o céu… o céu estava rachado.
Continue...
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