Além do Segredo

 





Capítulo 22 – O Fim do Ciclo

A porta diante delas parecia simples, mas ao mesmo tempo, era impossível não notar sua presença. Estava ali, flutuando no vazio, como uma promessa silenciosa e inescapável. O ar ao seu redor pulsava com uma energia que não vinha do mundo real — e nem da Fenda. Era algo... além disso. Algo que desafiava a compreensão.

Beatriz estava inquieta ao lado de Carolina, mas ambas sabiam que não havia mais escolhas. O Vigia Sem Rosto já havia mostrado sua força. Agora, tudo o que restava era seguir em frente.

— Está pronta? — Beatriz perguntou, com a voz mais suave do que o normal.

Carolina olhou para ela, os olhos carregados de uma mistura de incerteza e determinação. A presença do Vigia ainda pairava, mesmo que a figura monstruosa tivesse desaparecido. Era como uma sombra que continuava a se projetar nas suas mentes.

— Não tem volta, Beatriz. — Carolina olhou para a porta, que parecia chamá-la, atraindo-a para um destino que elas não compreendiam. — O Vigia já nos mostrou que não temos mais tempo. Se ficarmos, ele vai consumir tudo. Não é só a cidade… é o mundo. É o que sobrou.

Beatriz assentiu, sua expressão tensa. Elas haviam enfrentado muito até ali, mas o que estava além da porta parecia ser uma última prova — um abismo desconhecido.

A mão de Carolina tocou a maçaneta. O metal estava gelado, quase como se o próprio toque fosse suficiente para quebrá-la. Ela respirou fundo, sentindo o peso da escolha. Ali, naquela porta, estava a chance de liberdade — ou talvez o último passo para a destruição completa.

Ela empurrou a porta.

O som que a acompanhou foi como o de algo se quebrando, algo que não deveria ser aberto.

À medida que a porta se abriu, uma luz branca envolveu as duas, e o mundo que antes parecia sólido começou a se desintegrar.

O espaço ao seu redor não era mais feito de cidades, ruas ou casas. Não havia mais o peso do chão ou o ar denso. Tudo estava em um lugar fluido, uma espécie de espaço limpo e vazio, onde o tempo parecia curvar-se sobre si mesmo.

De longe, como uma memória desfocada, surgiram imagens. Os rostos das pessoas que elas haviam perdido. A cidade antes de ser consumida. E então… o rosto do Vigia Sem Rosto, com os olhos todos voltando-se para elas.

Mas ele não estava ali fisicamente. Estava no reflexo.

As imagens começaram a se distorcer. E foi então que Carolina percebeu que não estavam apenas em um novo lugar — estavam em um ponto fora do tempo.

Um ponto onde as lembranças e os reflexos se entrelaçavam, onde a linha entre o que existia e o que poderia existir se quebrava.

E no centro daquele lugar, havia uma única figura. Não era o Vigia. Era outra coisa. Uma presença ainda mais antiga e poderosa.

Ela tinha a forma de uma mulher, mas sua face estava completamente coberta por uma máscara, e sua silhueta era feita de pura luz, se dobrando de forma impossível.

"Vocês chegaram até aqui," a figura falou, a voz suave, mas com um poder que reverberava através de cada fibra do corpo de Carolina. "Eu sou a Guardiã da Porta. E vocês estão prestes a entender o que realmente está em jogo."

Carolina e Beatriz olharam uma para a outra, sem palavras. O medo era palpável, mas havia algo mais agora — uma cura, talvez, ou a promessa de um fim que traria paz, ou um novo começo. Algo que ambas precisavam entender, algo que estava além de qualquer entendimento humano.

A Guardiã deu um passo à frente, e à medida que ela avançava, as imagens ao redor de Carolina começaram a se estabilizar, tornando-se mais nítidas. Cada reflexo no ar agora se transformava em uma verdade.

"Vocês não estão aqui apenas para destruir o Vigia," disse a Guardiã. "Ele é apenas um eco. Uma consequência de algo muito mais antigo. Algo que o próprio tempo tentou esconder."

A voz da Guardiã era agora o único som nesse espaço que não era um reflexo, não era uma lembrança distorcida.

"O que vocês fizeram — o que estão fazendo — não é apenas sobre salvar o que resta. O que vocês enfrentam é um ciclo. O ciclo de criação e destruição, de esquecimento e recordação. E o Vigia é o último reflexo de uma realidade que nunca deveria ter existido."

Carolina sentiu um peso no peito. Tudo o que ela conhecia, tudo o que ela acreditava, estava desmoronando.

"O que vocês chamam de 'fim' é apenas o começo de um novo ciclo."

Carolina olhou para Beatriz, e no fundo, ela sabia que, para salvar o que restava do mundo, elas precisavam fazer uma escolha. O ciclo deveria ser quebrado. Mas como?

A Guardiã estendeu a mão, e na palma dela surgiu uma chave.

"A chave do que foi perdido. A chave do que ainda pode ser. Apenas uma de vocês pode usar. A escolha é sua."


Continue...

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