Além do Segredo

 



Capítulo 26 – Fragmentos do Futuro

A cada passo que davam, o vazio ao redor começava a se recompor, como um vidro estilhaçado voltando lentamente à sua forma original. Cores antes inexistentes surgiam no ar, tecendo fios que formavam árvores, caminhos, sombras de prédios antigos — um mundo nascendo da própria escolha de Carolina e Beatriz.

Era como andar por dentro de uma memória que ainda não tinha acontecido.

O chão sob seus pés se solidificou em pedras cinzentas, e ao longe, uma torre se erguia, alta, impossível, tocando o céu rachado de tons dourados e púrpuras. Em torno dela, o que pareciam ser pedaços de cidades flutuavam, como ilhas suspensas por correntes invisíveis.

Beatriz apertou a mão de Carolina.

— Isso aqui... é o que a gente criou?

Carolina olhou em volta. Não sabia como responder. Era lindo — e aterrador ao mesmo tempo. Tudo parecia certo demais. Perfeito demais.

Até que uma sombra cruzou o céu.

As duas instintivamente se encolheram, os olhos seguindo a movimentação no alto. Não era o Vigia. Não era uma criatura conhecida. Era algo novo. Algo que pertencia àquele novo mundo, surgido de sua escolha.

A sombra era sinuosa, fluida, como se feita da mesma matéria que criava o espaço em volta delas. E, mesmo distante, havia algo profundamente errado nela: ela os via.

— Carolina... — Beatriz sussurrou. — Acho que criamos mais do que só um futuro.

Antes que pudessem reagir, uma fenda abriu-se no chão à frente delas. Da fenda, jorraram ecos — formas deformadas, distorcidas, como fragmentos de si mesmas, versões alternativas que jamais viveram.

Carolina viu uma delas: uma Beatriz de olhos vazios, um sorriso morto no rosto; uma outra Carolina, marcada de cicatrizes profundas que não sabia de onde vinham. Cada eco era uma possibilidade rejeitada, abandonada. Mas agora, elas voltavam.

— Não é só sobre criar um futuro — murmurou Carolina. — É sobre lidar com o que deixamos para trás.

As figuras começaram a cercá-las, seus movimentos erráticos, quase infantis, mas com uma fome antiga, como se quisessem ser reais novamente.

Beatriz puxou Carolina, ofegante.

— Precisamos sair daqui!

Mas o caminho de volta havia desaparecido. Só restava ir adiante.

A torre à distância parecia pulsar com vida própria, como um farol. Carolina sentiu — soube — que era para lá que precisavam ir.

— A torre — ela disse, com firmeza. — É para lá que devemos ir. É onde tudo converge.

Beatriz assentiu, ainda tremendo. E juntas, correram.

Atrás delas, os ecos gritaram, um som sem voz que reverberou nas pedras, nas ilhas flutuantes, no próprio ar.

E enquanto corriam, Carolina sentiu, pela primeira vez, que estavam sendo caçadas — não pelo passado, não pelo Vigia, não pelo velho jogo que haviam conhecido.

Mas por algo novo.

Algo que elas mesmas tinham liberado.

Algo que queria existir — às custas delas.


Continue...

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