Além do Segredo

 





Capítulo 18 – O Preço da Fuga

Carolina e Beatriz recuaram, os olhos fixos nas criaturas que surgiam do bosque e do rio de espelhos.

Os Guardiões da Fenda.

Seus corpos pareciam feitos de fragmentos de memórias, costurados com fios de sombra. Eles se arrastavam e cambaleavam, mas havia uma determinação sombria em seus movimentos — como se o próprio mundo os empurrasse para frente.

— Corremos? — Beatriz perguntou, a voz falhando.

Carolina olhou para os lados, procurando qualquer rota.

Mas a Fenda... ela sentia.

Um chamado fraco, como um fio puxando seu peito em uma direção.

— Ali! — apontou.

As duas dispararam pela margem do rio, desviando dos galhos retorcidos, dos reflexos que tentavam agarrá-las, das sombras que surgiam do chão rachado.

Atrás delas, os Guardiões gritaram — um som de espelhos estilhaçando e metal sendo arrastado no chão.

Cada passo parecia mais pesado. Como se a Fenda estivesse tentando segurá-las, puxá-las para baixo.

O rio de espelhos começou a borbulhar.

Do centro dele, algo maior começou a emergir.

Uma figura de puro vidro partido, com dezenas de olhos vazios espalhados pelo corpo — o Vigia Sem Rosto.

Beatriz tropeçou.

Um dos Guardiões quase a agarrou — mas Carolina puxou a amiga de volta no último instante, o coração disparado.

Ali, no meio do nada, uma ponte apareceu.Feita de luz trêmula, instável.

Do outro lado, uma porta.

Simples, de madeira escura, cravada no vazio.

A porta entre mundos.

— É a nossa chance! — Carolina gritou.

Mas ao se aproximarem da ponte, uma voz cortou o ar como uma lâmina:

— Parem.

Elas viraram-se.

Parado entre os Guardiões, estava Leonardo.

Ou... algo que usava o rosto dele.

Ele parecia perfeito agora. Sem as rachaduras, sem os olhos vazios.

Quase humano.

Quase.

— Se atravessarem essa porta — disse ele, a voz doce, tentadora — nunca mais poderão voltar.

Carolina hesitou.

O que ele queria dizer?

Leonardo estendeu a mão.

— Fiquem. Aqui, vocês ainda têm chance de consertar tudo. De salvar aqueles que perderam.

Beatriz olhou para Carolina, os olhos cheios de medo.

— E se for verdade? — sussurrou.

Carolina sentiu o peso da escolha sobre seus ombros.

Ficar e se arriscar a ser engolida pela Fenda?

Ou atravessar a porta — e aceitar que certas perdas eram para sempre?

A luz da ponte tremia.

O Vigia Sem Rosto se erguia atrás deles, monstruoso.

O tempo estava acabando.

Carolina apertou a mão de Beatriz.

E escolheu.


Continue...

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