Além do Segredo
Capítulo 28 – O Coração dos Ecos
O coração de cristal pairava acima delas, pulsando lentamente. Cada batida lançava ondas de energia invisível, fazendo as escadas flutuantes e as paredes ondularem em resposta. Era como se a própria torre respirasse, viva de uma maneira antinatural.
Carolina e Beatriz se aproximaram devagar.
À medida que chegavam mais perto, suas visões começaram a se embaralhar.
Fragmentos de memórias — reais e imaginárias — surgiam no ar como imagens emolduradas:
A infância de Carolina, correndo pela praia...
Beatriz chorando sozinha em um quarto escuro...
O rosto de Leonardo sorrindo — e depois desaparecendo em névoa...
Uma versão delas mesmas rindo sob um céu que jamais existiu.
O coração reagia a tudo.
Beatriz cambaleou, pressionando as mãos contra a cabeça.
— Ele está puxando a gente pra dentro — gemeu. — Quer... nos fundir com isso.
Carolina sentiu a mesma força arrastando-a, como uma corrente sob a superfície do mar. Não era um ataque físico — era emocional. Mental. Uma tentativa de fazê-las se perderem dentro de si mesmas, de fundir suas essências àquele núcleo para que nunca mais saíssem.
O coração queria absorvê-las.
Transformá-las em parte da Torre.
— Não — Carolina disse, a voz trêmula, mas firme.
Ela lembrou do que a figura havia dito no labirinto: o futuro era moldado pela escolha.
Aqui, agora, era a última prova. Se cedessem ao coração, se deixassem que suas dúvidas, medos e arrependimentos os definissem, seriam consumidas. Parte delas já queria desistir, deitar-se e deixar o peso desaparecer.
Mas a parte que restava — a parte que escolheu seguir — precisava resistir.
Carolina estendeu a mão para Beatriz.
— Não somos nossas versões quebradas. Não somos nossos erros.
Beatriz a olhou, os olhos cheios de lágrimas.
— Somos quem escolhemos ser.
Juntas, elas deram o último passo.
O coração explodiu em uma onda de luz ofuscante, cobrindo tudo.
Por um momento, Carolina pensou que haviam falhado — que o mundo inteiro estava sendo apagado.
Mas então...
Da luz, surgiu uma ponte.
Feita de memórias, de momentos reais, de escolhas conscientes.
Uma passagem segura através da mente voraz da torre.
Sem hesitar, Carolina e Beatriz atravessaram.
Atrás delas, o coração de cristal desmoronava, rachando em milhares de cacos que se desfaziam no ar como poeira de estrelas. A torre começava a ruir, as escadas flutuantes despencando no abismo abaixo.
Quando chegaram ao outro lado da ponte, Carolina e Beatriz se viraram uma última vez para ver a torre — o antigo jogo — sendo finalmente consumido.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiram algo real.
Liberdade.
O véu entre os mundos se fechava atrás delas, costurando-se como uma ferida que finalmente cicatrizava.
A noite ao redor estava silenciosa, fresca.
Elas estavam de volta.
Não ao mundo de antes — mas a um novo mundo que haviam ajudado a criar.
Um mundo onde o jogo havia, enfim, terminado.
Ou ao menos...era o que parecia.

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