Além do Segredo

 



Capítulo 21 – O Labirinto dos Esquecidos

A cidade estava derretendo ao redor delas, os edifícios se distorcendo como se a própria matéria estivesse sendo desconstruída. Cada reflexo, cada espelho quebrado mostrava uma versão distorcida de tudo o que Carolina conhecia. O vento carregava um zumbido profundo, como o som de algo se arrastando.

O Vigia Sem Rosto flutuava à sua frente, sua figura impossível de entender. Às vezes parecia grande como um prédio, outras vezes pequeno como uma sombra atrás de uma porta. Mas seus olhos — os milhares de olhos — nunca desapareciam.

Carolina deu um passo à frente, sentindo que a realidade estava se apertando, tornando-se uma prisão invisível ao redor delas.

— O que quer de nós? — Beatriz gritou, a voz desesperada. — Por que está fazendo isso?

O Vigia riu. Ou melhor, foi um som que veio de todos os lados ao mesmo tempo, como uma gargalhada distorcida de um ser que não entendia a humanidade.

"Vocês são apenas ecos. O que restou de um passado que não deveria ter sido."

Carolina sentiu um calafrio.

Essas palavras… elas faziam sentido. De alguma forma.

— O que significa isso? — ela forçou, mais para si mesma do que para o Vigia.

Os olhos do Vigia se estreitaram, como se estivesse avaliando cada pedacinho da alma dela.

"O que vocês chamam de 'realidade' é um reflexo de algo que nunca existiu. O jogo começou há muito tempo, e vocês... vocês fazem parte dele, sem saber. Cada escolha, cada passo dado, cada perda. Tudo foi programado."

Carolina engoliu em seco, sentindo o peso de suas palavras. O que ele estava dizendo?

— Como? — Beatriz sussurrou, dando um passo para trás.

"O que é real é o que vocês aceitam. E o que vocês perderam já não importa. O verdadeiro jogo não está entre vocês e eu." A voz do Vigia soou como uma tempestade quebrando o silêncio. "O verdadeiro jogo é o que está além de tudo isso. O que vocês nunca poderão entender."

Carolina começou a entender. Ou talvez fosse só uma sensação crescente, como uma luz apagada que começa a brilhar. O Vigia não era apenas uma entidade. Ele não era só um ser monstruoso com olhos que devoravam tudo à sua volta. Ele era uma parte de algo maior. Algo que tinha criado, destruído e recriado a própria realidade.

Mas o que isso significava para elas? O que significava para todos que já tinham passado por ele?

— O que você quer de nós? — Carolina repetiu, com a voz mais firme, mais clara.

O Vigia se aproximou, seus olhos se ampliando, injetando uma dor palpável dentro da mente de Carolina.

"Eu sou o que resta dos que foram esquecidos. Eu sou o eco de um mundo que vocês não sabem que perderam."

E então ele se desfez. Não se desfez no sentido de sumir, mas se dividiu, se multiplicou. Fragmentos do Vigia se espalharam pela cidade, pelas ruas, pela terra.

De repente, a cidade, a cidade quebrada ao redor delas, começou a vibrar.

Carolina sentiu algo dentro de si — um chamado.

Uma memória que não lhe pertencia.

E à sua frente, no coração da destruição, surgiu uma porta.

Uma porta feita de... lembranças?

Não era a mesma porta que haviam atravessado. Era diferente. Era como se ela estivesse fazendo parte de um ciclo que nunca acabava.

— Vamos, Beatriz — disse Carolina, a voz mais forte do que ela imaginava que seria.

Beatriz olhou para a porta e depois para Carolina, os olhos cheios de uma compreensão silenciosa.

O Vigia Sem Rosto havia dito a verdade: o jogo não acabava.

E a única maneira de derrotá-lo era ir além da porta. Para aquilo que estava além da Fenda, além da memória, além do tempo.

E era isso que elas fariam.


Continue...

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