Além do Segredo

 





Capítulo 27 – A Ascensão da Torre

O som dos ecos distorcidos aumentava atrás delas, cada passo reverberando como um trovão na realidade recém-nascida. Carolina e Beatriz subiam uma trilha irregular que levava à base da torre colossal, a estrutura curvando-se para o céu como um dedo apontando para o desconhecido.

O ar ao redor parecia pesado, denso — não de calor, mas de memórias esquecidas, de promessas feitas e quebradas.

Beatriz tropeçou, mas Carolina a segurou antes que ela caísse.

— Não para agora — disse entre dentes. — Estamos perto.

À medida que se aproximavam da torre, as formas alternativas — as versões erradas delas — se tornavam mais agressivas. Algumas tentavam agarrar seus tornozelos. Outras apenas observavam, com olhos vazios e bocas silenciosamente abertas.

Mas havia algo ainda mais inquietante.

Entre as distorções, Carolina viu Leonardo.

Ou algo que parecia ser ele.

Ele estava parado diante da porta da torre, o corpo meio formado, os olhos fundos e escuros como poços sem fundo. Sua presença fez Carolina estacar.

— Leo...?

Beatriz puxou-a com força.

— Não é ele! Não é ele, Carolina!

Mas a figura sorriu — um sorriso quebrado — e estendeu a mão.

"Vocês me deixaram."

A voz não saiu de sua boca. Ela ressoou dentro delas, como uma lembrança forçada a ser ouvida.

Carolina fechou os olhos, lutando contra a dor que brotava em seu peito. Era uma ilusão. Tinha que ser. Um reflexo das culpas que carregavam.

"Vocês podem consertar."

"Só precisam ficar."

A cada palavra, o chão ao redor da torre se quebrava mais. Pequenas rachaduras se espalhavam como raízes podres, e dos buracos, mais ecos começavam a rastejar.

Carolina sentiu a pressão esmagadora da dúvida. E se realmente fosse possível trazer Leonardo de volta? E se ficar ali fosse o único jeito?

Mas então, ao seu lado, Beatriz falou, com uma firmeza que surpreendeu até a si mesma:

— Ele confiou em nós para seguir. Não para ficarmos presos.

Carolina inspirou fundo. O falso Leonardo ainda estendia a mão, os olhos suplicantes. Mas agora ela via: não era ele. Era o que o vazio queria que elas vissem. Era o peso da culpa tentando detê-las.

Com um grito, Carolina puxou Beatriz, correndo em direção à porta da torre. A figura gritou atrás delas, um som de vidro se estilhaçando e carne se rasgando, mas elas não olharam para trás.

A porta era feita de um material que parecia pedra viva, pulsando em compasso com seus próprios corações. Sem hesitar, Carolina empurrou-a com ambas as mãos.

A torre aceitou.

A porta se abriu como se tivesse esperado por elas desde sempre, revelando um interior banhado por uma luz dourada e espectral.

Carolina e Beatriz cruzaram o limiar.

No momento em que passaram, o som dos ecos cessou.

O mundo lá fora congelou — e desapareceu.

Dentro da torre, o espaço era vasto e impossível. Escadas flutuavam no ar, levando a lugares invisíveis. Paredes moviam-se como ondas. E no centro, suspenso por correntes de luz, havia um coração.

Um coração enorme, feito de cristal, pulsando devagar, como o bater de um tambor ancestral.

E elas souberam.

A torre era o jogo.

A torre era a origem.

A torre era a última chance.

Beatriz olhou para Carolina, os olhos cheios de uma coragem silenciosa.

— Estamos prontas?

Carolina apertou sua mão.

— Agora, mais do que nunca.

O coração de cristal os chamava.

Mas também os testaria como nunca antes.

Porque para vencer o que tinham liberado…elas teriam que enfrentar a si mesmas.


Continua...

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