Além do Segredo
Capítulo 20 – O Peso da Verdade
Carolina olhou para Beatriz, que ainda estava no chão, as mãos tremendo.
As duas estavam de volta, sim — mas não inteiramente.
A cidade ao redor parecia corroída, como se algo tivesse minado suas fundações. O céu estava distorcido, tingido de um tom acinzentado, como uma tela manchada. O vento era frio, mas não trazia alívio.
— O que aconteceu? — Beatriz murmurou, com a voz falha. — Onde estamos?
Carolina não tinha uma resposta.
As ruas estavam vazias, mas havia sinais de uma vida que ainda estava ali — ou que tinha passado recentemente. Carros abandonados. Portas entreabertas. Papeis voando no vento.
E os olhos...
Ela sentiu os olhos antes de vê-los.
Carolina virou-se, os pelos do pescoço arrepiados.
No final da rua, uma figura alta se erguia entre a névoa, sua presença esmagadora, como se o espaço ao redor dela fosse distorcido.
O Vigia Sem Rosto.
Os olhos — milhões de olhos — brilhavam na escuridão que o cercava. E não eram apenas os olhos. Cada um deles tinha uma presença própria, um poder que parecia manipular a realidade.
— Ele não... — Beatriz começou, mas foi interrompida pelo som profundo, quase hipnótico, da voz do Vigia.
"Vocês acham que escaparam. Acham que estão livres."
A voz parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, uma onda sonora que distorcia o espaço.
Beatriz se levantou, uma expressão de pânico no rosto.
Carolina não sabia o que fazer. O que podia ser feito? Eles estavam em um lugar real — mas ao mesmo tempo, não estavam. Algo havia mudado para sempre.
— O que quer de nós? — Carolina gritou, a voz rouca, desafiante.
O Vigia se moveu. Ou melhor, ele não se moveu. Ele se espalhou, crescendo como uma sombra que engolia a cidade, preenchendo cada centímetro de espaço ao redor delas.
"Eu sou o fim do que vocês conhecem. O reflexo do que já passou. O eco de quem nunca existiu."
A realidade ao redor delas começou a se dobrar. As ruas desapareceram, a cidade sumiu — tudo começou a ser substituído por espelhos. Reflexos distorcidos da cidade, do passado, do que poderia ter sido.
Carolina olhou para Beatriz.
— Não importa o que ele diga. Não vamos deixar isso nos derrotar — disse Carolina, com uma determinação que ela não sabia que ainda tinha.
Mas a verdade era clara agora. Eles tinham atravessado um ponto sem retorno. O mundo real estava sendo corroído pela presença do Vigia, e a única maneira de impedir que fosse completamente consumido era confrontá-lo, de algum modo.
O Vigia Sem Rosto era uma entidade de espaço e tempo, manipulando não apenas o que viam, mas também o que lembravam, o que poderiam esquecer.
Eles estavam no jogo dele.
E o jogo nunca acabava.
Continue...

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