Entre o Bem e o Mal

 



Capítulo 18: A Canção Esquecida


O vento mudou.

Não soprava como antes — suave e constante. Agora, assobiava entre as árvores, como se sussurrasse nomes esquecidos. As folhas dançavam em espirais que se desfaziam em direções contrárias. Algo estava fora de ordem.

Na torre de Nyx, Lyra caminhava em círculos, os pés descalços deixando marcas de névoa sobre o chão de pedra. Espelhos se agitavam nas paredes, revelando fragmentos do que ainda não aconteceu.

— O selo está rachando — disse Nyx, encarando o reflexo de si mesma, que a observava com olhos que não eram seus.

Irina sentia a mudança também. Suas poções ficavam instáveis. Uma explodiu em fumaça negra, formando por instantes o contorno de um rosto sem olhos.

No clã, Selene ordenou que as fronteiras fossem reforçadas. Corujas de obsidiana sobrevoavam a floresta. O Conselho se reunia em silêncio, todos temendo fazer a pergunta que pairava no ar:

Quem é “ele”?

Kaela procurava respostas no antigo santuário, onde as primeiras Filhas da Lua enterraram seus nomes. Ela tocou as runas gravadas em pedra e, por um instante, ouviu um cântico — um coro suave, feminino… e desesperado.

Norman estudava o grimório à luz de velas verdes. Uma página antes ilegível agora sangrava tinta pelas bordas, revelando palavras seladas:

“Quando a lua for partida por dentro, o que jaz fora retornará.”

Ele franziu o cenho. O que jaz fora?

Lyra, naquela noite, cantou.

Foi um som frágil, de uma melodia que não pertencia a este mundo. Todos os espelhos da torre se partiram ao mesmo tempo. E da maior rachadura, algo piscou.

Um olho.

Selene caiu de joelhos no salão de pedra, sentindo a pele queimar. O selo da lua em seu ombro ardia em fogo branco. Kaela, do outro lado do clã, gritou, agarrando o mesmo lugar.

Do céu, uma estrela cadente riscou o horizonte.

Mas não era uma estrela.

Era algo caindo.

Algo que voltava.

Nyx surgiu diante do espelho quebrado, encarando a rachadura onde o olho desaparecera.

— Ele já não precisa de convites — murmurou.

— Quem é ele? — perguntou Irina, pálida.

Nyx olhou para Lyra, que flutuava a poucos centímetros do chão, de olhos fechados e lábios sorrindo.

— Ele… é o que deixamos lá fora.


Continue...

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